Não podemos confiar nem nos que podemos confiar: o caso Silvio Almeida
- Jessica Cardin

- 11 de set. de 2024
- 3 min de leitura
Nosso país é este lugar em que o Ministério do Meio Ambiente libera os agro(hiper)tóxicos, onde o ministro dos Direitos Humanos (supostamente) pratica crime contra mulheres e os absurdos se somam. Nessa gigante casa de ferreiro, espeto de pau-brasil.
Quatorze mulheres denunciaram Silvio Almeida por importunação e assédio sexual, e chama-se de assédio pois algumas estavam em posição inferior a ele em hierarquias, na Universidade ou nas funções de Governo. Seria um complô, uma gangue organizada para derrubá-lo? Esta conspiração teria como a mais afamada (suposta) vítima uma ministra do mesmo lado político que ele, responsável por políticas públicas de enfrentamento à desigualdade racial e luta contra o racismo, pautas pelas quais Silvio é importantíssimo ativista?
Não é impossível. O Brasil mostra, dia a dia, que as mais esdrúxulas situações impensáveis podem tomar forma de pesadelos vivos.
Antes de julgamentos e desfechos, voltamos nossa atenção aos números.
Estatisticamente, é muito difícil que quatorze mulheres, quatorze, quatorze mulheres estejam mentindo!
Doeu a dor coletiva que sentimos com tragédias acontecem à parcela de nosso povo. A notícia doeu antes de ser provada verdadeira porque a estatística fala: mesmo os homens mais brilhantes e, talvez genuinamente interessados em fazer o mundo um lugar melhor através do conhecimento, das artes, do direito, mesmo esses podem revelar o pior de si diante de uma mulher -- ou de várias. Podem se revelar diante de quatorze.
Doeu porque somos obrigadas a lembrar: não podemos confiar nem nos que podemos confiar!
Escrevi um livro que retrata um homem destes que se dizem a favor de uma civilidade alicerçada em respeito igual para todos os seres humanos, sem exploração, mas que em suas vidas particulares exercem contra mulheres o que condenam publicamente. Este livro que escrevi hoje ocupa boa parte da minha vida e os assuntos ali tratados ganham ainda mais importância conforme eu converso com leitores, por isso a notícia me toca, toda dor coletiva é antes pessoal.
Quase todas elas me contam que já passaram por algo parecido; e alguns homens admitem terem se reconhecido em atitudes do agressor - nas mais sutis, é claro, mas ainda assim.
Queríamos admirar estes homens, até amá-los. Mas eles não permitem.
Esses homens como Heitor, meu personagem professor humanista, cheio de belos discursos poemas belezas, ele guarda o que tem de pior para a mulher.
Quando um homem de grande impacto na sociedade faz algo assim, não anula sua contribuição prévia. Sim, é possível e até necessário separar obra e autor. A obra ficará. Mas um dia, conversando entre amigas, diremos:
"Lembra daquele homem que amávamos?
Pois é, que pena, ele não existe mais. Porque morreu simbolicamente para nós... Aquele homem sequer existiu!"
Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania
Fiquei pensando no nome desse ministério... Direitos humanos + cidadania, sim, uma coisa poderia (deveria) pressupor outra, mas não. Sabemos que mulheres, mesmo obviamente humanas, não eram consideradas cidadãs. No Brasil, pudemos votar em 1965*. Até então, não tínhamos os mesmos direitos "humanos". Até hoje não temos.
Nada mudou, o mundo continua o mesmo, o Brasil continua igual, esse é o problema, só fomos lembradas: não estamos seguras em nenhum lugar!
Há condições que somadas tornam algumas mulheres mais vulneráveis do que outras, mas não há nenhuma a salvo. Mesmo quando ocupamos posições de relativo poder, ainda estamos sujeitas, a qualquer momento e em qualquer espaço, termos nossos corpos invadidos.
A civilidade que encontraria seu ponto máximo em quem melhor é capaz de pensar a sociedade desaparece e dá lugar ao comportamento mais primitivo e absurdo. Para além do pensamento, quem agirá melhor para a sociedade se não nós que nos propusemos a nos voltar para o outro e renunciamos à busca predatória por privilégios individuais?
Estes homens são a prova de que é preciso pregar, sim, até para os convertidos.
Preferiríamos que Silvio Almeida e tantos outros fossem apenas brilhantes, que nunca fossem acusados de assédio, preferíamos ler seus livros e apoiá-los em seus trabalhos.
Preferíamos amá-los.
Se eles ao menos permitissem...
*No Brasil, mulheres puderam votar a partir de 1932. Porém, como DEVER CIVIL, ou seja, no papel efetivo de cidadãs, na mesma condição que os homens, apenas em 1965.




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